Capítulo Único
5:47 PM, ela viu no relógio. É, talvez ele não viesse. Não que ela o culpasse, não se sentia no direito de tanto, mas não poderia negar que estava magoada.
Dois meses, pensou ela. Dois longos meses apenas o observando de longe com os amigos. Os dois meses mais solitários que já passara sozinha.
Ela olhou outra vez para o relógio e mais um minuto havia se passado. Por onde será que ele andava? Nunca fora de se atrasar. Pelo menos não quando estava com ela, o papel de atrasada fora sempre dela. É, talvez fosse isso. Ele apenas achou que ela se atrasaria e resolveu sair mais tarde de casa. Não havia motivo pra se preocupar, o ex-namorado logo estaria ali.
O celular vibrou dentro da bolsa em seu colo, acompanhado de uma musiqueta alegre. Pronto, encontro acabado. Só podia ser ele pedindo desculpas e dizendo que não iria por ter algo mais importante a fazer. Ela abriu a bolsa e vasculhou até encontrar o celular pequeno. Por falta de coragem atendeu o aparelho sem olhar quem era.
— Alô? — Falou num sussurro.
— ? — Uma voz feminina falou do outro lado e ela suspirou aliviada.
— Que foi?
— Onde você está? Acabei de passar na sua casa e a porta estava aberta.
— Ah, droga. Devo ter deixado aberta na pressa de sair.
— Está tudo bem? — a amiga perguntou preocupada.
— Está sim. Eu... Estou naquele encontro com o que falei para você ontem.
— Ah, me desculpe. Estou atrapalhando vocês, não é?
— Na verdade não. Ele ainda não chegou e eu acho que já vou embora.
— Por quê? Espera mais um pouco. Deve ter acontecido algum imprevisto, logo ele chegará, você vai ver.
— , nós marcamos aqui às cinco horas. Eu não acho que ele virá.
— Eu sinto muito... — lamentou do outro lado. Ela provavelmente acabara de conferir as horas.
— Tudo bem, eu te ligo mais tarde.
— Certo. — ela respondeu e desligou.
A garota deu uma olhada demorada para o parque a sua volta.
— Eu espero não ter feito você esperar muito tempo. — Uma voz falou atrás de fazendo-a virar-se instantaneamente, o coração pulsando rápido.
— Não, tudo bem. — Ela disse sem jeito se levantando e ficando de frente para o rapaz.
— Eu sinto muito mesmo. Você deve ter algo para fazer depois daqui, e eu me atrasando. — Ele falou encarando os pés.
— Tudo bem, . — Sorriu instintivamente com a preocupação do ex-namorado. Ele parecia não ter mudado nem um pouco. — E, eu não tenho nada pra fazer depois daqui.
— Ah. — murmurou e olhou para o lado, fugindo do olhar de , se transformando no sem emoções outra vez, o que ela conhecera nesses dois meses. — Acho que você tinha algo pra falar comigo, não é?
— Hum, é. — Desembuchou sem jeito, um pouco abalada com o modo que ele havia dito.
— Então?
Seria mais difícil do que imaginara. Muito mais difícil.
Ele começou a andar pelo parque, que merecia muito mais atenção por sua beleza do que os dois o estavam dando, e a garota acompanhou seus passos.
— Eu queira te pedir desculpas por tudo que aconteceu há dois meses. — Ali, fora a vez dela de encarar o chão. O coração doendo no peito e o orgulho mais amassado do que ela achou que fosse ficar.
— Certo. — A voz dele saiu dura outra vez.
— , eu estou realmente arrependida. — Tentou de novo, mas ele pareceu tão indiferente quanto antes.
— Está tudo bem, . Acho que nós já superamos isso. — Parecia tão certo do que dizia que ela não poderia se achar mais idiota. Então ela era a única abalada ali, a única que não havia superado o fim do namoro.
— Eu... Eu pensei que... — A voz falhou com o nó na garganta, mas ela não podia chorar. Se ele estava tão bem, por que se mostrar fraca? Podia querer muitas coisas dele, mas uma das coisas que não queria era pena.
— Você pensou o quê?
— Nada. — Rebateu. — Me desculpe por ter feito você vir até aqui.
— Era só isso? — A forma que ele falava a estava machucando muito mais do que antes. Ela podia ter errado muito, mas toda essa indiferença parecia demais.
— Acho que sim. — fez tudo pra que a voz saísse uniforme, mas o que conseguiu foi uma voz baixa e falha.
Ela parou e fez o mesmo ficando ao seu lado.
— Eu sinto muito por ter te dado esse trabalho. — A garota segurou com mais força o nó na garganta, abaixando o olhar para que ele não visse as lágrimas que começavam a se formar. — Eu acho que já vou indo. A gente se vê por aí.
— Ok.
Ela saiu a passos largos, sentindo a lágrima escorrer enquanto o vento frio de outono batia em seu rosto. Como fora idiota! Achava mesmo que mudaria as coisas com uma conversa.
— , — parou pouco antes de esbarrar em duas crianças que passavam de bicicleta, e logo depois ouviu passos atrás de si amassarem as folhas secas no chão — por que você sempre faz isso?
A voz dele não estava mais dura, estava triste.
— Isso o quê? — passou a mão pelo rosto enxugando a lágrima antes de se virar.
— Desistir de tudo, acabar com tudo. Sempre.
não estava entendo. Ele não estava bem até pouco?
— Eu não faço isso.
— É claro que faz. Você sempre acaba com tudo, nunca vê o valor de nada até perder. Por que faz isso, ? — Implorava por uma resposta.
— Eu não faço isso. — Repetiu — Me desculpe por não ser perfeita como você, . Só me deixe ir agora.
— Achei que queria conversar.
— E eu quero conversar, o que não quero é brigar. Será que dá pra parar de estragar todas as lembranças felizes que eu tenho desse lugar?
— Acho que eu tenho esse direito, não tenho? Penso que eu esteja nelas.
— Não, você não tem esse direito. — Ele não podia apenas deixá-la ir embora? Precisava mesmo piorar tudo?
— Então eu não entendo por que você teve o direito de estragar o que eu sentia por você.
Ela abriu a boca, mas nada saiu. O que ele queria, afinal? Fazê-la se sentir pior do que já se sentira nesses dois meses?
Os dois ficaram em silêncio por um tempo, apenas se encarando.
— Eu disse que sentia muito.
— Você não sente nem um terço do que eu senti, . — Ele sussurrou a deixando sem ter o que falar novamente. Os dois continuaram em silêncio, um tentando evitar o olhar do outro.
— Acho que não vamos chegar a lugar algum aqui. Se não se importa, eu vou embora. — Ela ajeitou a bolsa no ombro e esperou até que ele dissesse algo.
— Me desculpe, estou sendo rude.
— Tudo bem, devo merecer.
— Não, eu realmente sinto muito. — Ele reforçou e o olhou sem entender. — Apesar de tudo...
Ela esperou.
— Eu não consigo me sentir bem vendo você sofrer. — completou com dificuldade.
— Oh. — Falou sem emoção, realmente desapontada. — Eu sinto muito por não se sentir bem.
— Não... Você não entendeu. — Ele falou rápido, antes que a garota decidisse ir embora novamente. — Eu quero dizer que ainda me importo com você, .
— Eu pensei que já tínhamos superado isso até agora pouco. — Ele a estava rejeitando ou não? Havia superado ou não?
— Até ontem eu pensava que você já. — Voltou a encarar o chão enquanto falava e ficou em silêncio. Ela não esperava essa resposta. Ela nem ao menos sabia mais o que esperar.
— Você me perdoa, ? — Tentou outra vez.
— Eu te perdôo, . — Ele disse e levantou o olhar para vê-la, dando um pequeno sorriso que a garota retribuiu sinceramente. — Você ainda pretende ir embora?
— Não. — Um alívio invadiu-a completamente ao vê-lo sorrindo.
— Vamos voltar a caminhar então? — Sugeriu.
concordou com um aceno de cabeça e os dois voltaram a andar pelo parque mais calmamente. — Ainda está com raiva de mim?
— Não. — A voz dele saiu suave, muito diferente da voz que a estava machucando antes. — Eu sou tão estúpido, . No dia seguinte eu me odiava por não conseguir sentir raiva de você. Eu conseguia sentir raiva de mim e não conseguia nem chegar perto de sentir de você. Eu estava magoado e... Muito decepcionado.
— Me desculpe. — Ela lamentou outra vez. — Acho que eu merecia essa raiva.
Ele riu levemente, ainda parecendo um pouco incomodado com algo. — É, você merecia.
— Você disse “no dia seguinte”, você quis dizer no dia após a briga, não é?
— Não, eu quis dizer no dia após ter visto... Você sabe. — O rapaz desviou seu olhar de novo, parecendo alterado.
A garota não entendeu.
— Visto o quê?
— Você com o cachorro do Black. — Ele olhou para ela e seu rosto estava mais sério.
parou outra vez, ela fechou os olhos e um murmúrio de ódio saiu de sua boca.
— Eu não sabia que você tinha visto. — Ela abriu os olhos devagar, ainda com raiva.
— Como? — pareceu um pouco irritado com o que ela dissera.
— Não sabia que você tinha visto aquele idiota me beijar. — Repetiu.
— O que quer dizer com isso?
— Por que terminou comigo, ? — Tudo parecia mais claro agora. O ódio, a indiferença. Os dois meses inteiros passaram a fazer sentido, ao mesmo tempo em que não faziam.
— Você sabe por que terminei com você. — Ele falou, não gostando da brincadeira.
— Foi por causa do beijo?
— É, foi por causa da traição.
— Eu não te traí.
— Oh, então eu estava delirando ou algo assim? — A irritação já transparecia em sua voz.
— Ele me beijou a força. — falou calmamente e bufou em resposta. — O que te faz pensar que eu iria querer algo com Bill?
— Eu não sei. Vocês trabalham juntos há tanto tempo. Você passava mais tempo com ele do que comigo.
— Bill é um completo idiota! Ele sempre pegou no meu pé e eu nunca dei a mínima importância. Então ele soube que nós havíamos brigado e veio falar comigo. Eu disse a ele, mais uma vez, que não queria nada, mas ele me beijou. Eu não tenho nada com Bill, .
— Você sempre passou tanto tempo naquele hospital que eu pensei que...
— O que você fazia lá? Na noite que me viu com Bill? — Indagou cortando-o.
— Eu estava indo pedir desculpas... Pelo que havia dito pra você na noite anterior. — Disse incerto, de forma culpada. suspirou.
— Depois de quatro anos pensei que confiasse mais em mim.
— Eu confiava, mas Bill... — Ele fez uma pausa e olhou bem para ela. — Eu tinha muito ciúme dele, . Nós havíamos brigado e a primeira coisa que me veio à cabeça quando vi você lá, foi que você correra pros braços dele. Sinto muito.
— Eu não sei o que dizer. — olhou para o chão sem saber se deveria estar brava ou não.
— Você me perdoa, ? — Perguntou suavemente enquanto levantava o rosto da garota com a mão direita, para que ela o olhasse nos olhos.
— Eu... — A palavras faltaram e sua respiração ficou descompassada quando ele a tocou.
Os olhos dourados dele estavam tão perto. A boca dele estava tão perto... Ele estava muito perto. Ela nem lembrava mais o que perguntara. Fazia tanto tempo que ele não a olhava assim. Poderia ficar ali até seu corpo se cansar, mas ele se aproximou mais, colocando seus lábios nos dela, tocando seu corpo no dela. Ele passou a mão esquerda em seu cabelo, e a pressionou contra si, logo depois passando a outra mão por suas costas. correspondeu ao beijo sem nenhum esforço, enquanto ele a beijava com vontade, com a saudade que ela também sentia.
— Eu senti tanto sua falta. — Ele disse após se separarem, uma de suas mãos ainda no rosto da garota.
— Eu também. — Confessou sem conseguir sustentar o olhar de . Não entendia o porquê, mas isso não parecia certo. Talvez estivesse a tanto tempo esperando por isso que acabou não sendo o que imaginava. Ou talvez tudo tivesse mudado; talvez o amor não fosse mais o mesmo.
— O que foi? — Ele continuava com a mão no rosto dela, esperando uma resposta.
— Eu não sei. — Respondeu sinceramente. — Alguma coisa não está certa, .
— O quê? — Ele ainda a olhava atentamente e era correspondido com esforço. — Eu fiz alguma coisa que você não gostou?
— Não... Não é isso. — O rapaz esperou por mais enquanto brincava com seu cabelo.
Os dois ficaram algum tempo assim, sem notar as várias pessoas que passavam por eles. Devagar o céu foi ficando mais amarelo, contrastando com as várias árvores que estavam da mesma cor no parque.
— Você ainda me ama, ? — Ela levantou a cabeça, o sentindo parar de mexer em seu cabelo e a olhar surpreso.
— É claro que sim. — Respondeu rapidamente.
— Então aquilo que disse sobre eu estragar o que você sentia por mim...
— Era mentira. — abaixou o olhar, mas voltou rapidamente a olhá-la. — Eu acho que pensava que você havia acabado com que tinha entre a gente, mas cada vez mais eu via que eu ainda te amava e isso me deixava pior, porque você parecia tão bem sem mim. Eu só queria que fosse desse jeito... Eu queria te odiar e não conseguia. Hoje eu vim aqui disposto a acabar com tudo, mas eu não pensava que te encontraria tão triste. Não importa quão mal eu esteja, isso parece nada com o que sinto quando vejo você infeliz. — Ele admitiu e o olhou com lágrima nos olhos. Ela só precisava ouvir isso; era isso que estava faltando antes. — Hey... Não chora. Eu só quero que saiba que eu não acho mais possível que um dia eu deixe de te amar.
— Eu... Ah, . — O abraçou sem saber o que dizer; ficando daquele jeito enquanto suas lágrimas molhavam a blusa do rapaz — Eu te amo.
O silêncio que se passou dessa vez foi incômodo; foi muito maior que os outros. esperava que dissesse algo, mas ele só continuou ali. As lágrimas já haviam parado de cair e o clima não estava pesado, mas ela tinha medo de sair do abraço e eles não terem mais o que dizer. Tinha medo de que mudasse de idéia ou que tudo não passasse de mais um de seus sonhos com ele. Mas antes que pensasse em algo para dizer ele apertou mais o abraço e acariciou seu cabelo, afastando-a gentilmente em seguida.
— Eu também. — Ele sussurrou de volta e a beijou com mais calma.
— Eu sinto muito por não ter te dado a atenção que você merecia antes. Eu só pensava em trabalhar e achava que você tinha que entender isso. — falou o que estava querendo dizer desde que chegara, justificando o motivo que até pouco para ela era o porquê do namoro acabar. Então entrelaçou sua mão na dela, a puxando para andar novamente.
— Hum, eu vou cobrar isso. — Ele riu. — Ah, a propósito, você me deixou curioso. Conseguiu uma tarde de folga hoje?
— Não. — Ela sorriu com a cara de espanto que recebeu.
— Você faltou ao trabalho? — O rapaz perguntou incrédulo.
— É claro que não... — Ela abaixou a cabeça rindo — Acredite se quiser: eu estou de férias.
— VOCÊ O QUÊ?
— Ah, , não é pra tanto. Eu só estou de férias.
— Como não é pra tanto? — Ele perguntou rindo. — Isso merece uma comemoração. Pode falar o restaurante que quiser, nós vamos sair hoje à noite.
— Uau. Se eu soubesse que seria assim eu teria tirado férias antes. — Comentou.
— Eu duvido que você faria isso.
— Na verdade, eu também duvido. — Mostrou-lhe a língua o fazendo gargalhar.
— Vai estar de férias por quanto tempo?
— Dez dias.
— Dez dias? — Choramingou. — Pode esquecer o restaurante então.
— Como você é romântico, . — reclamou.
— Eu estava brincando.
— Eu também.
— Sobre o que você estava brincando? — O rapaz perguntou sem entender.
— São três meses.
— Três meses o quê?
— De férias. — Ela riu novamente. — Eu falei com o Dr. Felix sobre eu me afastar durante algumas semanas, e ele fez uma cara parecida com aquela sua e então ficou todo contente dizendo que não queria me ver por lá durante três meses.
— Isso é fantástico. — Disse alegre. — Mande lembranças minhas ao Dr. Felix quando o encontrar novamente.
— Eu não entendo por que todos ficam tão felizes com isso. Não faz tanto tempo assim que eu não tiro férias. Sinto-me tão inútil quando não estou lá. E, ah, você se lembra do Billy? Aquele senhor que eu sempre falava pra você. Então, ele disse que sem mim aquele hospital não teria a mínima graça. O coitado raramente recebe visitas. Eu acho que poderia visitá-lo algumas vezes durante esses três...
— , não, não.
— Mas...
— Você consegue ficar três meses sem ir até lá. Não precisa usar Billy como desculpa. — segurou o riso. — E, diga ao Billy que você já tem dono.
— Eu tenho, é? — olhou-o divertida.
— Tem. — Ele sorriu de volta.
— Não me lembro de nenhum tipo de pedido ultimamente. E, de qualquer jeito, é grosseiro dizer que eu tenha um dono, não acha?
Ele parou; riu, e virou-se para ela. — Seria grosseiro se seu dono fosse qualquer outro cara, se não eu. —Falou convencido, mordendo o lábio para não rir quando ela mostrou-lhe a língua novamente. Sentira falta daquela mania.
É, ela estava brincando quando disse sobre ser grosseiro. Poderia achar que fosse se não tivesse gostado tanto do modo como havia soado. Não se achava uma propriedade para ter dono, mas a idéia de ser dele não lhe era, nem de longe, ruim.
— E, se não se lembra — ele continuou, ainda com uma de suas mãos segurando a dela —, não houve nenhum “término oficial” de namoro. Depois da briga a gente mal se falou.
Bom, ele estava certo. Ninguém havia pronunciado nem um “está tudo acabado”. Ela apenas desistiu de falar com ele, quando todas as vezes que tentava acabavam sendo em vão. Ele sempre parecia magoado ou irritado o suficiente para não querer conversar.
Isso era bom. Ou não. No fundo, esperava ouvir o pedido novamente.
Enquanto pensava, se aproximou mais, ficando com a boca perto de seu ouvido. — Então, pra não parecermos apressados demais... — Ela sentiu os cabelos da nuca se arrepiarem. — Que tal esquecermos-nos desses dois meses?
— Eu não estou entendo, . — Falou sem graça, com medo de cortar o clima.
Ele riu e se afastou um pouco para olhá-la nos olhos. — Quer se casar comigo, ?
A voz não saiu; não houve nenhuma reação.
Casar? Esperava um pedido de namoro. Mas isso era bom, não era? Quer dizer, casar-se com ele. Esse sempre fora seu sonho.
Ela realmente não esperava por isso.
— Eu... — Murmurou saindo do transe, notando o olhar dele ainda em cima de si, ansioso e ligeiramente nervoso. E seu rosto estava úmido ou era impressão? Não, ela realmente estava chorando. Talvez fosse isso que estava deixando tão preocupado. Chorando. E ela que sempre pensou que chorar de felicidade era bobagem.
— Você... — Ele falou, esperando que todo aquele suspense acabasse.
— É claro que eu quero! — sorriu e ele também o fez rapidamente, aliviado, e a surpreendendo novamente com um beijo um pouco mais desesperado que os outros.
— Eu estou tão feliz, pequena! — Ele disse com um sorriso de orelha a orelha e a abraçou, a assustando quando começou a girá-la no ar.
— , pára! — Ela riu, ouvindo a risada dele logo após a sua. — Você sabe que eu fico tonta quando faz isso!
O rapaz riu mais alto e devagar parou de rodá-la, colocando-a no chão.
— Eu te amo, . — falou com um sorriso encantador nos lábios.
— Me ama quanto? — Sorriu a garota de volta.
— Muito mais do que você a mim, se quer saber — ele sussurrou para ela que ignorou o arrepio que passou por todo seu corpo.
— Não, não. Eu te amo mais. — Replicou e sentiu outra vez a boca dele sobre a sua.
E tinha certeza disso. Sabia que seria impossível que a amasse mais do que ela o amava. Talvez ela tivesse demorado um pouco para perceber isso, mas, mais do que nunca, sabia o quanto era dependente dele.
— Hey, vamos ali ver o pôr-do-sol. — Puxou-a pela mão.
o acompanhou até acharem um lugar do parque onde não havia pessoas andando de um lado para o outro. Ele afastou as poucas folhas do chão — não havia árvores muito perto de onde estavam — e se sentou, esperando que ela fizesse o mesmo ao seu lado.
— Lembra da última vez que estivemos aqui? — perguntou enquanto colocava a cabeça sobre o colo de .
— Lembro. — Respondeu enquanto passava a mão pelo cabelo dele, que a encarou sorrindo de volta. — Foi bem aqui, não é?
— Foi. — Disse ele fechando os olhos.
— Nosso primeiro beijo foi nesse parque também. — Lembrou ela, ainda acariciando o cabelo do rapaz.
— Foi sim, mas do outro lado dele. — Um pequeno sorriso ainda brincava lábios nos lábios dele.
Os dois ficaram em silêncio e, devagar, o céu ia ficando com mais cores além do amarelo.
— Sabe, quando você me ligou, eu sabia que iria escolher aqui, mas não queria que o fizesse. — Ele disse um pouco mais sério. — Isso me deixou inquieto. Eu não tinha certeza se iria conseguir ser durão enquanto lembrava-me de todos os momentos que passamos aqui.
— Foi o único lugar que veio à minha cabeça, ou pelo menos o melhor. Mesmo que nós não voltássemos... Mesmo que você tivesse ido em frente com o que estava fazendo quando chegou; eu queria passar mais uma tarde com você, e essa podia ser a última, tinha que ser aqui.
— Eu sei, esse é o nosso parque. — Sorriu ele e então voltou seu olhar para o sol que em menos de um minuto já não estaria lá.
também mirou o pôr-do-sol, sentindo a mão de em seu rosto logo em seguida.
— Pequena — disse ele devagar e ela o olhou esperando que continuasse —, eu só queria que soubesse que o que disse agora pouco não é verdade. Eu te amo muito mais do que você a mim. E, por favor, não pense o contrário.
— Certo.
Bom, ela poderia sobreviver bem com esse pensamento.
— Hey, . — Chamou-o com uma sobrancelha erguida.
— O quê?
— E o meu anel? — Tentou segurar o riso.
— O que tem ele?
— Bom, eu estou esperando.
— Esperando o quê? Eu não sei em que canto você o jogou quando pensou que havíamos terminado.
riu. — Não esse anel.
— Qual então?
— Hum, não sei se você sabe, mas as pessoas costumam dar anéis quando pedem alguém em casamento. Na nossa cultura é assim.
levou a mão à testa.
— É mesmo... Acho que esqueci. — Ele deu um sorriso sem graça. — Eu posso dá-lo amanhã. Eu realmente não pretendia fazer esse pedido hoje.
— É, eu sei.
O noivo sorriu de volta um sorrisinho torto. O favorito de .
É claro que ela poderia sobreviver sem o anel por um dia, e conviver com a hipótese de ele amá-la mais. Mas a verdade é que não sobreviveria sem aquele sorriso torto feito apenas para ela.