Eu e Você, Sem Rimar
Por Lena e Jaque Pallisser
Beta-reader: Tah

 

Capítulo 1

Era uma noite de quarta-feira, eu acabava de cruzar a rua que vinha logo após a de Matt. Nenhum carro nas ruas e só duas garotas conversando ao portão de uma casa grande e verde. Elas pareciam se despedir. Era fim de outono, o vento batia gelado no meu rosto nem um pouco bronzeado, enquanto eu tentava respirar normalmente e ignorar as pequenas feridas do meu nariz. As garotas no portão me notaram e pararam imediatamente de conversar. Uma delas cochichou algo no ouvido da outra e as duas riram. Não era preciso pensar muito pra saber qual – ou melhor, quem – era o assunto, já que elas não disfarçaram. Olhei melhor para elas e tive a sensação de que já as tinha visto. Tentei me lembrar de onde, mas minha cabeça doía e fazer qualquer esforço mental estava fora de cogitação. Além disso, me lembrei que eu nem ao menos me importava com quem eram elas, ou com o por quê de estarem rindo de mim. Apenas o fato de não terem disfarçado é que pareceu diferente, quase engraçado. Era-me muito mais normal ver o rosto assustado que fizeram depois que as encarei. 
Continuei a caminhada até minha casa, aquele caminho da casa de Matt até a minha, que eu conhecia tão bem. Matt, Matt, Matt. Como ele era maravilhoso. Eu iria à lua com ele se ele pedisse. Sabe, eu era do tipo durona. De verdade. Não fora à toa que aquelas garotas ficaram com medo de mim. É, eu era durona, mas realmente sentia algo por Matt. Ele era divertido, e, apesar de não ter uma beleza perfeitinha, eu o achava bonito. Eu gostava do cabelo preto nem-curto-nem-cumprido dele, do nariz meio grande, do olho azul geralmente também vermelho, da boca fina e da aparência doentia. Eu gostava da risada dele, do cheiro de perfume misturado com o de cigarro, e, principalmente, do jeito que ele fazia eu me sentir. Matt era diferente de Marcus e de Ryan para mim; ele não tinha os olhos verdes e o carro de seu falecido pai, como Marcus, ou era loiro e ganhava uma mesada gorda, como Ryan. Não... Simples assim, sem um motivo, com ele era diferente. Ele podia me olhar do mesmo modo que olhava para uma pedrinha solta no asfalto, mas quando o olhar dele cruzava com o meu, meu coração acelerava. Ele podia falar “ ” do mesmo jeito que minha mãe, Ryan, ou qualquer outro, mas na voz dele parecia música. Meus dedos ficavam amortecidos ao tocar em Matt. Não era assim com mais ninguém. Tudo sobre ele, mesmo que tão normal, era diferente.
Eu já estava sobre a calçada da minha casa, perdida em pensamentos que envolviam Matt, quando reparei no humilde Honda S2000 branco e no Hyundai Tucson prateado, parados em frente à casa vizinha. Olhei mais um pouco para os carros, boquiaberta, e depois dirigi meu olhar à casa, que estava com algumas luzes acesas. É, eu tinha vizinhos novos. Ricos vizinhos novos. Caramba, tinha um Honda S2000 Ultimate Edition na minha frente! O Hyundai Tucson não ficava muito atrás, mas eu já vira alguns dele, e ele era muito de família. Além do mais, o Honda S2000, com toda sua magnitude, não seria mais produzido (para infelicidade minha e global) e aquela era a edição especial lançada na europa, no branco Grand Prix e com os bancos vermelhos. Ver um, reluzente e tão bonito quanto podia ser, era maravilhoso.
Quem diabos era meu novo vizinho? Warren Buffet? Ok, ok. Não era pra tanto. Warren Buffet devia ter, no mínimo, um Bentley Brooklands.
Passei mais alguns minutos babando nos dois carros e então resolvi entrar.
Eu só fora para casa comer algo após o colégio, então minha mãe estava me esperando com uma cara carrancuda, sentada no sofá, assim como previ.
- Oi, mãe. – Falei no tom mais natural que minha dor de cabeça permitia.
- Oi, . – . Era isso, alarme vermelho. – Sabe que horas são? Eu já falei pra você ligar quando for chegar tarde.
- Eu tava na casa do Matt, mãe, nem vi a hora passar. – Eu disse, tentando conter minha imensa vontade de subir as escadas pra evitar o velho sermão.
- Eu preciso ter uma conversa com a mãe do Matt pra poder confiar nisso. Porque daquela outra vez...
- É, na outra vez nós fomos da casa dele pra do Marcus, mãe, e quando você ligou eu já tinha saído, como eu já te disse milhares de vezes.
Se ela soubesse que era o Matt que mais cuidava da mãe do que ela própria dele, ficaria louca. Ou o que realmente aconteceu naquele dia, mas isso não vem ao caso agora.
Eu já estava com o pé direito no primeiro degrau da escada quando ela disse, ainda parecendo brava:
- Você jantou lá?
- A gente comeu uma pizza.
Tive certeza que ela ia reclamar dizendo que “comer pizza todo dia não dá”, mas ela torceu a boca e levantou do sofá, desligou a TV e amarrou mais forte o roupão cor-de-rosa falando:
- Vai dormir então, amanhã você tem aula.
Isso foi um grande progresso, por isso eu subi calada até meu quarto, tomei um banho demorado e caí na cama.

 

Eu ouvia as risadas tomarem a sala, enquanto uma Samantha O’malley segurava a caixinha de Tampax atrás das costas e uma Margaret gordinha falava constrangida com o professor sobre o furto do objeto de sua bolsa. Nada incomum, coisas assim aconteciam todos os dias no Manhattan’s High School. Margaret era apenas a vítima do dia de Samantha.
Estávamos na aula de química com o prof° Stevan, um inglês baixinho e careca que tinha dificuldade para lidar com a baderna na sala.
Eu suspirei em tédio e conferi o relógio, vendo que faltavam menos de 2 minutos para o fim daquela primeira aula. Para minha infelicidade Matt, Marcus ou Ryan também não estariam nela. Guardei o material e pouco depois o sinal soou. Vi Margaret ir até sua carteira juntar o material com desanimo e depois olhei para o fundo da sala, onde O’malley e as amigas conversavam. Garota estúpida, eu pensei. Ela não tinha o direito de fazer aquilo com Margaret só porque achava engraçado.
Então decidi, de súbito, fazer algo que eu nunca me importara em fazer.
- Sr. Stevan – o chamei. Ele se virou com o apagador em mãos.
- Sim?
- Foi Samantha quem pegou a caixa de absorventes da Margaret.
O professor me olhou apreensivo e um pouco surpreso. Ele devia estar odiando aquela confusão toda envolvendo absorventes internos.
- E o que te faz ter tanta certeza, Srta. ?
- Eu vi.
Ele me lançou um olhar desconfiado, e depois sorriu.
- Acontece que a Srta. O’malley é uma ótima aluna e você, , é uma das últimas da sala. Eu acreditaria mais fácil se me dissessem que foi você quem fez isso.
Oh. Essa doeu.
Professorzinho filho da mãe.
- Está certo então, sou uma aluna ruim e não mereço crédito. Certo, certo. – Eu disse, já virando as costas para ele. Sabe qual era a parte mais engraçada? Meu pai pagava uma grana consideravelmente alta pra que eles cumprissem com o que a escola propunha e isso incluía o “diferencial” de toda uma atenção e respeito pelo que quer que o aluno pensasse e dissesse. Pff, maldito capitalismo. Mas, bem, antes que eu chegasse até a porta ouvi uma voz masculina se dirigir ao Sr. Stevan. É, nada incomum até aí, mas a coisa é que o garoto parecia estar de acordo comigo. Por isso me virei.
- Ela não está inventando – ele disse. Tinha a mochila segura apenas em um lado dos ombros e se aproximava do professor. – Eu também vi a Srta. O’malley com o objeto.
Oh, oh, oh. Ele realmente estava do meu lado. Isso era... Incomum. Desde sempre eu me mantivera afastada dos outros alunos e eles de mim. Mm, talvez não desde de sempre, mas pelo menos desde o colegial. Mas isso ainda não mudava o fato de que aquela defesa à minha palavra era extremamente estranha. E extremamente da forma mais extrema possível, eu quero dizer. Principalmente levando em conta a aparência dele; digamos que o garoto era totalmente o oposto de Matt. E ser o oposto de Matt significa vestir jeans de marca, camisa listrada e gel de cabelo. E acrescento que, apesar de ser bem bonitinho, ele não fazia meu tipo. Meu tipo era Matt, acredite.
- Mm, Sr. , não é mesmo? – O garoto do gel de cabelo acenou um sim com a cabeça, de forma séria. – Não vejo por que você defenderia a Srta. , então considerarei o que vocês estão dizendo. Mas não pensem que podem sair por aí acusando outros alunos de coisas como essa sem terem provas, que fique claro.
- Está claríssimo. – Murmurei, não evitando meu sorriso vitorioso.
Sr. Stevan acenou com a cabeça, como se pensasse, e depois se virou novamente para o quadro negro. Percebi que o garoto do gel me olhava e me virei para pegar o caminho até a próxima aula, ignorando-o. Bem, não era por que tinha me “apoiado” que podia pensar que era meu amigo.
Mas acho que ele não entendeu essa.
- Hey – escutei-o me chamar. Não me virei, talvez ele desistisse. – HEY!
É, sem escapatória.
- Sim?
- Acho que me deve um obrigado. – Ele estava parado há um passo de mim. E, ok, ele era bonito mesmo. Mas aquela roupa era tão bom moço que me dava ânsia.
- Não, Margaret deve – falei como se fosse a coisa mais óbvia.
- É, ela também. – Ele fez uma cara pensativa e voltou a me fitar.
- Está mesmo esperando que eu te agradeça? – Segurei o riso. Ele não respondeu e deu um sorrisinho torto como se fosse inteligente. - Ah, por favor.
Voltei a andar. Quem quer que fosse esse garoto, que, aliás, eu nunca tinha visto por ali antes, eu já via que não ia gostar. Revirei os olhos quando percebi que ele estava me alcançando.
- Você pode me mostrar onde fica a sala de História então, já que é tão difícil dizer essa palavrinha?
Tive vontade de repetir com deboche o “palavrinha”. Ridículo.
- Mm, tanto faz, tenho a mesma aula.
Não precisei olhar para ele para notar que sorria.
- Obrigado – ele fez questão de olhar para mim ao dizer, ainda com o sorriso torto. – Sou .
Não falei nada em resposta. Olhei para as minhas unhas tentando mostrar que elas eram mais interessantes, mas me arrependi. Minha mãe estava certa sobre me levar à manicure. E, de qualquer jeito, eu me lembrava do prof.º Stevan falando “Sr. , certo?”.
- É agora que você me diz o seu. – Falou ele, como se estivesse se divertindo. Depois deu um risinho quando não respondi e colocou as mãos nos bolsos. – Tudo bem, , já vi que é a rebelde da escola.
Claro, o professor também já dissera o meu. Ignorei a parte do “rebelde”.
- Certo, e eu já percebi que você é o aluno novo que está tentando socializar. – Eu parei perto da sala de História, encarando-o. - Só que eu não sou a pessoa pra isso. Tenho certeza que qualquer outro aluno vai estar mais interessado em te mostrar a escola e passar o intervalo toodo conversando com você, e vocês também podem pular amarelinha depois.
Fiz questão de exagerar em meu discurso, mas ele não tirou o sorriso torto e tonto da boca.
Que garoto mais irritante. Lamentei outra vez internamente por não ter Marcus, Matt ou Ryan por ali. Ele com certeza não manteria a pose com meus amigos presentes.
- A aula já vai começar. – disse isso dando uma olhada para dentro da sala, depois me olhou, ainda sorrindo (COMO ALGUÉM PODIA SORRIR TANTO?!). – Vai ficar aí?

 

Não precisei me preocupar com pelo resto daquela aula, já que ele se sentou ao lado de Percy, um nerd do clube de informática, enquanto eu me encontrava do outro lado da sala. Foi prazeroso perceber a cara que ele fazia ao lado de Percy. O garoto não gostava de falar muito, o real problema com ele era o cheiro. Quero dizer, cheiro não seria a palavra correta; Percy fedia.
Depois parei de perder meu tempo com e comecei a prestar atenção no que o prof.º Jason falava sobre a Segunda Guerra Mundial. História era minha matéria favorita. Eu gostava de alguns assuntos de outras matérias, como genética, mas História era a única aula para a qual eu ia feliz.
E eu continuei muito bem na aula que se seguiu após aquela, onde Marcus também estava. Contei a ele sobre os carros do meu novo vizinho e, é claro, ele também ficou maravilhado. Eu diria que não tanto quanto eu, mas aquilo era o máximo que eu teria. Ryan e Matt não ligavam para carros, então eu tinha apenas Marcus para conversar sobre o assunto. Eu estava lhe contando sobre o inconveniente aluno novo, enquanto caminhávamos até nossa mesa de sempre no intervalo, com as bandejas de lanche em mãos, quando percebi que havia duas pessoas a mais por lá.
Parei de falar e olhei da mesa para Marcus, e ele levantou a sobrancelha em resposta.
- Quem são... – Eu ia lhe perguntar, mas parei de falar quando vi que uma das pessoas era Samantha O’malley, e que ela vinha em minha direção. Ela deu um sorrisinho cínico antes de passar por mim. Mal tive tempo de me perguntar o que diabos aquela garota fazia com os meus amigos, quando reconheci a outra presença indesejada.
- Quem é aquele? – Marcus perguntou inocentemente enquanto eu tentava me recuperar do choque.
- O idiota que eu estava te falando. – Consegui dizer enquanto minha felicidade se esvaía. O que ele fazia ali? O QUÊ?!
- Qual o problema? – Marcus perguntou-me em sua bondade vendo minha mudança de humor.
Respirei fundo quando chegamos à mesa, e respondi a ele. – Todos. Todos os problemas.
- ! – Ryan saudou animado e eu não sorri. Era o pior momento para me chamar de .
- Ry – murmurei em resposta, depois lancei um olhar que desejei que parecesse auto-explicativo ao Gel De Cabelo sentado e de costas para mim.
- Ah, , esse é o . – Ele me entendeu errado, é claro.
O Gel De Cabelo se virou.
- Olá, . – Pensei que ele não iria sorrir daquela vez, mas, adivinhe, lá estava aquele sorriso irritante. E pareceu ainda pior junto ao tom de voz sugestivo ao dizer “”.
- Oi – eu falei sem olhar para ele. Em vez disso olhei para Matt, que parecia ligeiramente acabado debruçado sobre a mesa. Sentei-me ao seu lado, pousando o lanche à minha frente e tentando ignorar a raiva me corroendo e a recente lembrança de Ryan chamando de “”. Não podia estar acontecendo, simplesmente não podia. Inalei demoradamente o ar, e me esforcei para me concentrar no perfume que vinha de Matt logo ao lado. Cutuquei-o de leve, percebendo que o Gel De Cabelo me observava enquanto Marcus conversava com Ry. Matt não respondeu. Cutuquei-o outra vez e ele se mexeu um pouco e depois levantou a cabeça. Ele me olhou com aqueles olhos azuis pequenos e avermelhados.
- Hey.
- E aí? – Sorri fraco para ele. Tudo estava absolutamente perfeito, até que Matt notou sentado e franziu o cenho. Ele não devia tê-lo visto chegar.
- Olá – falou ele. - Você é...?
- Sou – ele estendeu a mão e Matt a apertou.
- Matt Dempsey.
Os dois trocaram um olhar amigável que me inquietou mais.
- Aluno novo? – Perguntou Matt e fez que sim com a cabeça. – Tendo dificuldade em achar as salas?
- Não, alguns alunos me ajudaram nisso – e olhou para mim. Matt percebeu.
- te ajudou? – . Soava tão bem na voz dele.
- É, temos aula de Química e História juntos, não é, ?
Na voz dele não ficava bem, não mesmo.
- É – eu disse.
- Uau, e você se ofereceu para ajudá-lo? – Indagou Matt.
- É claro que não. – Falei mal-humorada. Os dois riram, como se eu tivesse dito algo engraçado. Não, como se conhecessem aquela minha reação e já a esperassem. Era demais para mim, aquele garoto desconhecido agindo como um de meus amigos.
- foi bem heróica hoje – ele falou para Matt, que pareceu interessado. – Eu estava saindo da sala quando a vi falando para o professor quem havia pegado o absorvente de uma aluna.
Eu o estava observando descrever isso quando ouvi uma gargalhada de Matt.
- Ela foi dedo-duro, você quis dizer?
Olhei surpresa para Matt. também riu.
- Me desculpe, – ele falou ainda se divertindo. O problema não era ele ter feito uma brincadeira, eu teria dado risada também se fosse um dia comum. Mas não era, e estava errado desde a parte em que eu ajudara Margaret até a parte em que esse garoto esnobezinho estava sentado comigo e com meus amigos na nossa mesa. O problema era meu amigo me zoar na frente do esnobezinho nesse dia errado. – O que há com você hoje, hein?
- Nada, Matt – falei tentando não demonstrar... bem, não demonstrar nada.
- Na verdade – o Gel De Cabelo começou a falar -, ela estava defendendo a outra aluna. Foi legal você ter feito isso, .
Pela primeira vez, ou pelo menos desde que me ajudara na sala, ele pareceu estar falando sério.
Mas Matt não levou tão a sério assim, porque ele bagunçou meu cabelo e disse:
- É pior do que eu imaginava. O que foi que aconteceu com você, ?
Dessa vez não pude evitar a risada, e quem visse a cena acharia que éramos três velhos amigos rindo. Se o riso de Matt não fosse tão bom de ouvir, eu teria feito algo para que visse que estava no grupo errado.

- O que a O’malley fazia aqui? – Perguntei minutos depois, quando Marcus e Ryan também já estavam sentados. Eu já terminara meu lanche e comia uma maçã.
Ninguém falou nada e olhei para Ryan.
- Eu não tenho nada a ver com isso, ela veio falar com ele. – E apontou para .
É, eu deveria ter imaginado.
Murmurei um "Mm", controlando minha vontade de perguntar o que ela queria.

 

Eu tinha aula de laboratório após o intervalo, mas não me animei nenhum pouco depois de lembrar isso. Eu até poderia gostar de genética, mas experimentos reais não eram comigo. Primeiro porque eu sempre dava um jeito de nenhum deles darem certo. Segundo porque quando resolviam dar certo, sempre me melecavam ou molhavam ou queimavam ou simplesmente me faziam chorar porque ardiam os olhos. Era humilhante e eu basicamente servia como “aviso” àqueles outros que não queriam colaborar ou usar devidamente os equipamentos.
- Bom dia, turma. – Disse o professor, um alto e magro demais. Ele se chamava Sebastian, porém todos o chamavam pelo sobrenome Tucker, mesmo que nem fosse o seu último sobrenome. Eu e os meninos costumávamos brincar de chamá-lo por “Sr. Sucker” pelas costas. Era divertido, embora, no fundo, o pobre homem não merecesse o apelido.
- Bom dia. – Eu e todo o resto da classe respondemos monotonamente.
- Que tal alguns experimentos com plantas?
Ouvi alguém de trás gritar “uhul”, mas eu sabia que era de sacanagem.
- Gosto tanto quando vocês estão animados... – Ele respondeu, irônico. Colocou a pasta em cima da mesa e eu pensei que ele não notaria se eu organizasse o microscópio e as lâminas de forma que desse espaço para eu pousar minha cabeça em cima dos braços cruzados. Mas eu acabei desistindo no meio da operação, porque o aparelho rangeu em cima da mesa de madeira e todos olharam para mim durante um segundo, incluindo o professor.
- Desculpa. – Eu sussurrei, dando um sorriso amarelo. Estava acabado meu plano de dormir na aula de laboratório, ou pelo menos durante a explicação dela.
Três minutos depois, quando ele tinha dado quase todas as instruções, Erin apareceu na porta da sala de aula, do lado de fora, olhando curiosa para dentro da classe pela janelinha. Ela não se incomodou em bater na porta e ficou esperando que o Sr. Tucker finalmente notasse uma cabecinha loira e o par de olhos castanhos encarando-o.
Erin Gordon era seu nome. Ela era minha dupla nas aulas de laboratório desde e o semestre passado e vínhamos nos dando bem desde então. Ela tinha uma aparência invejável, mas sempre se mostrava indiferente quanto a isso. Quero dizer, ela tingia o cabelo num loiro tão, tão claro que era óbvio demais ser falso. Não que isso fosse um problema ou que o tamanho dele, sempre muito curto, também fosse. Mas, sabe, ela sempre estava com bermudas largas – não exatamente feias, eu até diria que legais, se combinadas devidamente -, e com uma maquiagem que não favorecia seu rosto. Erin sempre estava com tênis nos pés e com a aparência de um menininho loiro deprimido. Olha, eu não posso julgar ninguém, porque isso seria hipocrisia. Mas eu já vira o corpo da Erin dentro de um biquíni. Eu concluíra sim que ela tinha curvas e peitos e bunda suficientes para atrair metade da população masculina do Manhattan’s High School.
- O que houve? – Eu perguntei fingindo interesse assim que ela se sentou e o professor nos deu o sinal para começarmos a pingar gotinhas coloridas em cima de amostras de plantas da família Sei Lá O Quê, mas a verdade era que eu nem mesmo estava curiosa.
- Eu só cheguei agora.
- Você é louca? Perdeu, tipo, mais da metade do dia fazendo o que, exatamente?
- Dormindo! – Então mostrou os dentes brancos num sorriso alegre.
Eu choraminguei.
- Por que a sua mãe é tão legal?
- Deve ser porque ela está no céu, meu amor. – Ela respondeu, lembrando-me de que era órfã de mãe.
- Ah, desculpe, Erin. Eu me esqueci.
- Tudo bem, nada de mais. O que temos que fazer? Aquele experimento para saber qual é o tipo de planta? – Erin colocou as coisas em cima da mesa e ajeitou o microscópio, agora sem fazer nenhum barulho. Aquilo me irritou. Como ela conseguia?
- Não. Ele já nos disse qual é. Temos que observar o tecido delas, mas eu realmente não sei a que conclusão ele quer que cheguemos. A gente não tem uma figura igual no livro???
- Hm, acho que sim. Sei lá, ele não deve ter mais o que passar pra nós e quer que a gente se acostume com o microscópio, como se fôssemos realmente utilizá-lo depois de ir pra faculdade. – Ela bufou, mesmo que não tivesse total razão. Afinal, alguns de nós íamos ter que conviver com microscópios depois de sair dali.
Embora eu discordasse com a opção sexual de Erin (não que eu fosse alguma preconceituosa filha da puta, como mais de 70% dos alunos do nosso ano, mas ela poderia ter quantos garotos quisesse! Por que a vida era tão injusta?) ou com suas roupas que mostravam pouco do seu verdadeiro potencial, eu gostava muito de Erin. Ela não era do tipo de garota popular que pisa em todos que estão pela sua frente (ou o tipo de pessoa que faz brincadeiras de mau gosto envolvendo absorventes internos como uma certa idiota que eu conhecia) e também não era uma nerd voltada totalmente aos livros. Na verdade, ela não tinha nenhuma personalidade pré-estabelecida, pelo menos não se encaixava em nenhuma. Eram poucas as garotas da nossa idade que se diziam gays com certeza absoluta, mas que também não fazia disso algo para ser popular. Ela era amável, às vezes teimosa, mas mais mansa que eu, ao menos. E, afinal, era bom ter uma amiga que não tivesse bolas. Aquele tipo de bolas.

 

As últimas aulas foram de tédio. Eu me sentei nas últimas carteiras e dormi. Eu estava pensando seriamente em levar um travesseiro para a escola qualquer dia, meu moletom já não era tão confortável. Faltava menos de meia hora para bater o sinal e eu ir para casa, quando a diretora foi dar um aviso na sala e me viu lá, dormindo. A bruxa me levou com ela para a direção e me disse para copiar o hino da escola. Pela minha experiência eu sabia que daria para copiar pelo menos cinco vezes, mas enrolei o máximo que pude e ela nem notou. E ela também não ligou para minha mãe... Eu disse que esta estava trabalhando e que eu não sabia o número de lá. Bom, eu sabia o do celular dela, mas esqueci de mencionar.

- O que fez dessa vez? – Marcus perguntou rindo ao me ver caminhar até o carro dele. Daquele lugar no estacionamento dava para ver de onde eu vinha, ou seja, dava pra ver que eu estava na sala da diretora.
- Dormi na aula. – Eu disse levantando os ombros e ele balançou a cabeça, ainda rindo. Coloquei as minhas coisas dentro do Mustang e depois fiquei parada de frente para os meninos, que estavam encostados no capô do carro. Prendi meu cabelo logo depois.
- Caara, acabei de lembrar que eu me esqueci de pegar o telefone da Nina. Ela tem aqueles melões tão... Sabe? Duros e grandes. – Ryan disse, como se aquele assunto fosse importante para alguém, até para ele mesmo. Ele parecia não ter notado a nossa conversa ou sequer a minha presença ali.
- Você lembrou que se esqueceu? – Marcus perguntou, com um tom brincalhão na voz.
- É! Você se lembra dela? Nossa, ela é muito gata.
- Ryan, aprenda comigo. Nada de “melões”. “Peitos”, tudo bem? “Peitos” é melhor que “melões”. – Eu disse, porque realmente tinha ficado incomodada com a palavra.
- Mas a coisa está em falar “melões”. – Ele fez as aspas no ar, zombando de mim. – Melões são comestíveis, grandes e duros. Assim como os peitos da Nina.
- Eu me lembro da Nina... – Ouvi a voz de Matt, mas não prestei muita atenção no que ele dissera. Só o som da voz tinha me distraído muito... Só depois que fui notar que ele falava sobre a garota dos melões, quero dizer, peitões.
- Até que enfim, Matt. – Disse Marcus. Senti um puxão no meu rabo de cavalo e depois ele se soltou. Matt havia pegado meu elástico.
- Me devolve! – Eu disse autoritária.
- Ou o quê? – Ele provocou.
- É sério, Matt. Você sabe que eu odeio quando mexem no meu cabelo. – Eu tentava pegar o elástico da mão dele, mas ele era mais rápido do que eu. Ele já parecia mais acordado àquela hora.
- Aí, será que dá para o Jared e o Paul irem com a gente no carro? Eu tô devendo um trabalho de Trigonometria e eles iam lá pra casa pra ajudar...
- Alguém vai ter que ir no colo. – Marcus cantarolou. – Ou alguém quer dividir o banco do carona?
- Tudo bem, a pode ir no colo de alguém.
- Não, senhor! – Eu protestei. – O problema é deles se vão com a gente. Por que eu tenho que ir no colo?
- Ok, então você prefere ficar com o Paul que tem 1,90 no seu colo ou o Jared que é do time de futebol? – Matt perguntou, tentando me convencer. Odiava o fato de ele me fazer concordar com tudo que ele dizia. – Além do mais, você é a mais levinha. Quem manda ser a única mulher por aqui?
Eu bufei.
- Quer saber? Eu vou a pé. Eu seria a primeira a saltar mesmo.
- Não, ! Você pode sentar no colo do Matt, a gente deixa. – Ryan disse, mas eu fiquei bem furiosa com aquilo.
- Muito obrigada, prefiro ir andando. Se me dão licença... – Abri o carro para pegar as minhas coisas jogadas pelo banco do motorista. – E devolve meu elástico. – Me dirigia a Matt. - É o mínimo que você pode fazer.
Ele me devolveu sem hesitar. Caminhei na direção da saída do colégio, oposta à saída do estacionamento. Eu tinha alguns livros na mão e a minha bolsa. Tinha ficado um pouco chateada. Não gostava de ter que ir caminhando para casa, mesmo que não fosse um percurso tão grande. Havia algumas mesas pelo caminho, das quais, em uma delas, eu coloquei minhas coisas que eu tinha na mão e a minha bolsa. Peguei o elástico e o pus de volta no cabelo, fazendo o mesmo penteado de antes. Não vi o resultado e sabia que estava uma grande bosta, mas não me importei. Coloquei o máximo que eu pude das coisas que eu carregava na mão dentro da bolsa. Não foi muita coisa, mas diminuiu o peso que eu estava carregando. Caminhei até a saída do colégio.
O lugar aonde eu estudava ficava numa grande avenida e eu morava numa das transversais dela. Só que, hm, talvez um quilômetro dali. Dava uns dez minutos no passo normal, uns quinze se eu estivesse distraída e talvez sete se eu fosse rápida. Eu estava apostando doze minutos. Saquei meu celular do bolso e memorizei na cabeça o horário. Eram quase três horas. Faltavam sete minutos.
Guardei o celular, tentando me lembrar a última vez que eu fizera aquilo. Fazia tempo que eu não andava até em casa. Eu estava bem distraída com isso quando todos aqueles carros começaram a buzinar. Aquilo me tirou do semi-transe em que eu entrara. Algumas pessoas olhavam mais ou menos para a minha direção, mas eu estava na calçada e não tinha nada a ver com os carros. De repente notei o CARROAQUI indo numa velocidade inacreditavelmente lenta.
- ! – Eu ouvi. Reconheci aquela voz que eu tinha ouvido pela primeira vez não tinha muito tempo. – Dentro do carro! Aqui!
Virei-me para o carro prata e observei com um sorriso e acenando para mim, enquanto tentava dirigir ao mesmo tempo. Eu caminhei até ele, mas o carro já estava parado.
- O que você está fazendo aqui??
- Te dando uma carona. – Ele respondeu, ainda com o sorriso. Meu Deus, ele não desistia mesmo de mostrar os dentes. Não perdia uma oportunidade sequer.
- Não, obrigada. Vou andando até em casa.
- Sério, ? Estou atrapalhando o trânsito por causa de você.
- Porque quer. – Eu disse alto, já andando. Ele me seguia com o carro à mesma velocidade dos meus passos lentos demais.
- Entra no carro logo, eu te levo pra casa.
- Já disse que não quero ir! Pode ir pra casa você. Me deixe em paz. Já não basta na escola, até aqui você me persegue.
- Não estou te perseguindo. Estou sendo legal. Se você não sabe diferenciar isso, você tem sérios problemas então.
- Tudo bem, obrigada por ser legal comigo, mas eu não preciso das suas gentilezas. – Continuei andando pela rua, como se não houvesse um carro ao meu lado, me seguindo.
- Te acompanho até em casa, sem problemas.

Continua.

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